Com dívida de R$ 3 bilhões, Corinthians avalia projeto SAFiel que permite à Fiel Torcida comprar ações e assumir controle pulverizado.

O Sport Club Corinthians Paulista, um dos maiores clubes do Brasil, enfrenta uma das maiores crises financeiras de sua história. Com um endividamento que se aproxima dos R$ 3 bilhões, o modelo associativo tradicional do clube paulista tem sido desafiado, gerando centenas de milhões em juros anuais.

Diante desse cenário alarmante, emerge no Parque São Jorge o projeto Safiel. A proposta, estruturada por torcedores, visa transformar a gestão do futebol profissional, separando-a da estrutura social do clube e permitindo a abertura de capital. O objetivo central é que a própria torcida compre ações e assuma um controle pulverizado, evitando a dominação por um único investidor.

Essa iniciativa reflete uma transformação mais ampla no esporte nacional, impulsionada pela Lei da Sociedade Anônima do Futebol (SAF), aprovada em 2021. Busca-se uma nova maturidade para o futebol brasileiro, mas o sucesso do modelo dependerá de disciplina e transparência rigorosas, conforme informação divulgada por Veja Esporte.

A Profunda Crise Financeira do Timão e a Lei da SAF

O Corinthians, nascido em 1910, encontra-se hoje encurralado por uma asfixiante crise financeira. A dívida bilionária consome recursos vitais, dificultando investimentos e a manutenção de uma estrutura competitiva. Este colapso do modelo associativo tradicional escancara a urgência de novas soluções de gestão para o clube e para o futebol nacional.

A aprovação da Lei da Sociedade Anônima do Futebol (SAF) em 2021 abriu caminho para que clubes buscassem o formato empresarial. Contudo, a migração não é uma solução mágica, conforme alerta José Francisco Manssur, advogado e coautor da lei. “A SAF não é uma varinha mágica que você encosta no clube e ele se transforma numa potência”, ressalta Manssur, enfatizando a necessidade de auditoria e métricas de governança.

Safiel: O Modelo de Controle Pulverizado e o Engajamento da Fiel

É neste contexto de cautela que o projeto Safiel se destaca. Desenhado para transformar juridicamente o futebol do Parque São Jorge, a iniciativa aposta em uma organização financeira de controle pulverizado. “O Corinthians está diante de um ultimato financeiro e institucional”, afirma Carlos Teixeira, um dos idealizadores do projeto.

O plano prevê que a SAF do Corinthians não teria um controlador principal. Um teto rígido de 1,8% dos votos por CPF é fixado para impedir o domínio individual. A gestão seria responsabilidade de diretores profissionais e independentes, blindados das disputas políticas do clube social e submetidos a conselhos de administração.

Ações da Torcida vs. Doações: Uma Nova Perspectiva Financeira

A proposta da Safiel visa engajar diretamente a Fiel Torcida no mercado de capitais. “A intenção é entregar o futebol do clube para seu verdadeiro dono: o torcedor”, explica Eduardo Perez Salusse, advogado, idealizador e porta-voz do projeto. Com a compra de ações, o torcedor se torna titular de um pedacinho do Corinthians, diferente de doações passivas.

A necessidade de trocar a doação por direitos societários ficou evidente com a vaquinha para a Arena do Corinthians. O projeto, que envolvia a torcida organizada Gaviões da Fiel, o clube e a Caixa Econômica Federal, visava arrecadar R$ 720 milhões. Embora tenha coletado mais de R$ 40 milhões em doações populares, ficou muito aquém da meta, mostrando os limites das contribuições sem contrapartida corporativa.

Exemplos Internacionais e o Futuro do Futebol Brasileiro

A viabilidade da Safiel busca respaldo em modelos internacionais de gestão comunitária. Nos Estados Unidos, o Green Bay Packers da NFL é um exemplo de franquia profissional pertencente inteiramente à sua comunidade de torcedores. Na Alemanha, a regra do “50+1” assegura a maioria dos votos aos sócios, como visto no engajamento massivo do Union Berlin.

No futebol inglês, o Portsmouth FC foi salvo da liquidação judicial e da corrupção em 2013, quando o Pompey Supporters Trust, formado pela torcida, comprou o clube. Iniciativas como a Safiel, que buscam conciliar a paixão popular com instrumentos do mercado financeiro, podem apontar um caminho para a maturidade do futebol brasileiro, mas o sucesso dependerá sempre de disciplina orçamentária, transparência e compliance rigoroso.

Perguntas Frequentes

O que é o projeto Safiel do Corinthians?

O projeto Safiel é uma proposta para transformar o futebol do Corinthians em uma Sociedade Anônima do Futebol (SAF), separando-o da estrutura social. Ele visa abrir capital para que a Fiel Torcida possa comprar ações e ter um controle pulverizado do clube.

Qual o valor da dívida atual do Corinthians?

O Corinthians enfrenta uma asfixiante crise financeira com um endividamento que se aproxima dos R$ 3 bilhões, consumindo centenas de milhões de reais anualmente apenas no pagamento de juros.

Como a torcida pode controlar o Corinthians pelo projeto Safiel?

Pelo projeto Safiel, a torcida poderá comprar ações da SAF do Corinthians, tornando-se proprietária de um pedaço do clube. O modelo prevê um teto de 1,8% dos votos por CPF para garantir um controle pulverizado, e os acionistas teriam assento em instâncias deliberativas.

A Lei da SAF é uma solução mágica para clubes endividados?

Não, conforme alerta o advogado José Francisco Manssur, coautor da Lei da SAF. A migração para o formato empresarial exige auditoria profunda, cumprimento de métricas de governança, disciplina e transparência para que o projeto tenha sucesso e não acumule novos prejuízos.

Existem exemplos de clubes controlados pela torcida no mundo?

Sim, há precedentes internacionais. Nos EUA, o Green Bay Packers (NFL) é de propriedade de seus torcedores. Na Alemanha, a regra do “50+1” assegura a maioria dos votos aos sócios dos clubes, como o Union Berlin. No futebol inglês, o Portsmouth FC foi comprado pelo Pompey Supporters Trust, formado pela própria torcida.