Proposta bilionária da Fifa para gerir ativos comerciais provoca crise geopolítica e forte oposição de confederações.
A polêmica proposta da Fifa de criar a Fifa Forward Enterprise (FFE), uma subsidiária privada avaliada em cerca de US$ 20 bilhões (aproximadamente R$ 102 bilhões), para gerir seus ativos comerciais, como a Copa do Mundo, desencadeou uma das maiores crises geopolíticas na história do futebol. A entidade promete repasses diretos de US$ 20 milhões (R$ 102 milhões) para cada uma das 211 filiadas em busca de aprovação.
No entanto, o plano enfrenta duras críticas da Uefa, que lidera a oposição ao projeto, além da Concacaf e da Confederação Asiática. As confederações reclamam da falta de transparência do processo e temem que o futebol fique à mercê da ganância de investidores do mercado financeiro, alterando profundamente a dinâmica do esporte global.
Para a professora Katia Rubio, da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), especialista em psicologia do esporte e geopolítica esportiva, o projeto escancara a “ruína” do antigo discurso de que esporte e política não se misturam, conforme informação divulgada por Estadão Esporte.
A instrumentalização política do futebol
A professora Katia Rubio argumenta que a aproximação de Gianni Infantino, presidente da Fifa, com Donald Trump, ex-presidente dos Estados Unidos, expõe a instrumentalização do futebol na busca por poder e lucro desenfreado. Ela afirma que a ideia da FFE tem raízes trumpistas, abraçadas por Infantino, transformando o futebol em uma “arma dentro dessa estratégia de avanço global”.
Rubio ressalta que estratégias políticas associadas ao esporte não são novas, citando João Havelange, que, para se manter presidente da Fifa, cooptou federações de pequenos países. O que se vê agora, segundo ela, é a “ruína da afirmação de que esporte e política não se misturam”, de forma escandalosa.
A oposição europeia e os interesses econômicos
A Uefa, a confederação europeia, percebe que a proposta da Fifa pode significar a perda de seu espaço econômico dominante no futebol internacional. Ao colocar a Fifa sob influência americana, a Europa teme desvalorizar suas competições continentais, que hoje são os grandes mobilizadores de atletas e recursos em nível global.
A professora Katia Rubio critica a associação com Donald Trump, que ela vê como um símbolo da decadência, buscando no futebol uma alavanca para futuras eleições. Essa aliança geopolítica, segundo ela, é um movimento estratégico que altera o equilíbrio de poder no esporte.
América Latina: subserviência e alinhamento político
A questão da Fifa Forward Enterprise transcende a dependência financeira, tocando em uma questão histórica de dependência geopolítica. Katia Rubio aponta que os Estados Unidos sempre viram a América Latina como seu “quintal”.
A ascensão da direita na região, com o apoio de figuras como Javier Milei na Argentina, evidencia um alinhamento político e uma “extrema subserviência aos interesses norte-americanos”. A professora reforça que o esporte não é neutro, sendo historicamente tratado dessa forma apenas no que diz respeito à ocupação de poder pelos atletas, enquanto na esfera diplomática, o alinhamento político é claro.
O lucro desenfreado e o futuro dos atletas
Todo esse cenário se insere em um ambiente “altamente complexo e interdependente”, impulsionado pelo espírito do capitalismo e pela exploração do mais fraco. A professora da USP conecta a proposta da Fifa ao crescimento das bets e à transformação dos estádios em arenas, que ela vê como um primeiro passo para a mercantilização extrema.
Katia Rubio critica a ideia de uma Copa do Mundo com 64 países, que duraria mais de 45 dias, gerando mais dinheiro e estádios cheios. O resultado, contudo, é a marginalização dos protagonistas: os atletas, que são os que menos importam nesse conluio econômico, apesar de serem a essência material do esporte.
Perguntas Frequentes
O que é a Fifa Forward Enterprise (FFE)?
A Fifa Forward Enterprise (FFE) é uma proposta de subsidiária privada da Fifa, avaliada em US$ 20 bilhões, destinada a gerir os ativos comerciais da entidade, como a Copa do Mundo, prometendo repasses diretos às federações filiadas.
Por que a Fifa Forward Enterprise está gerando polêmica?
A FFE gera polêmica devido à oposição de confederações como Uefa, Concacaf e Confederação Asiática, que reclamam da falta de transparência e temem a ganância de investidores, vendo o projeto como uma instrumentalização política e econômica do futebol.
Quem são os principais críticos da Fifa Forward Enterprise?
Os principais críticos da Fifa Forward Enterprise são a Uefa, que lidera a oposição, a Concacaf, a Confederação Asiática e especialistas como a professora Katia Rubio da USP, que vê no projeto a ruína da neutralidade esporte-política.
Como a proposta da Fifa impacta a separação entre esporte e política?
Segundo a professora Katia Rubio, a proposta da Fifa, especialmente a aproximação de Gianni Infantino com figuras como Donald Trump, escancara o fim da máxima de que esporte e política não se misturam, revelando o futebol como uma ferramenta geopolítica e de busca por poder e lucro.

