Proposta da Fifa para Copa do Mundo busca parceiros privados, um modelo já consolidado em vôlei, Fórmula 1 e ligas de críquete.
A Federação Internacional de Futebol (Fifa) surpreendeu o mundo do esporte ao anunciar a criação de uma nova empresa. O objetivo é claro: administrar suas atividades comerciais, atraindo investidores privados para a Copa do Mundo e outras competições. A movimentação gerou discussão na comunidade futebolística, mas o modelo não é inédito.
A iniciativa de Gianni Infantino, presidente da Fifa, visa injetar capital na principal modalidade esportiva do planeta. Contudo, as implicações de um sócio privado nas operações e na governança da Copa do Mundo ainda são um ponto de grande interrogação, gerando apreensão sobre os rumos futuros do futebol.
Para entender melhor o que a Fifa propõe, é possível olhar para outras modalidades esportivas que já trilharam caminhos semelhantes. Críquete, vôlei e automobilismo oferecem exemplos de como federações e ligas se associaram a investidores, conforme informação divulgada por Estadão Esporte.
Modelos de investimento em ligas de críquete e franquias
No críquete, um esporte de grande popularidade na Índia e na Inglaterra, existem modelos comerciais bem-sucedidos, embora com distinções importantes. A Indian Premier League (IPL), na Índia, funciona como as ligas americanas, como NBA e NFL. Ela é uma união de franquias, cada uma com seu próprio proprietário, que comercializa direitos de transmissão, patrocínios e hospitalidade. O valor estimado da IPL acaba de atingir US$ 20 bilhões, com a venda recente de franquias.
Na Inglaterra, a liga The Hundred também vendeu participações minoritárias em suas oito franquias de uma vez, avaliando o coletivo em 975 milhões de libras. A principal diferença para a proposta da Fifa é que estes são modelos de ligas de franquias que vendem participações nas próprias equipes, não uma federação internacional que vende participações em uma nova empresa para gerir suas competições.
Vôlei: o case de joint venture com private equity
O vôlei, por outro lado, apresenta um modelo muito mais próximo ao que a Fifa pretende replicar. Em 2021, a Federação Internacional de Voleibol (FIVB) firmou um acordo com a CVC Capital Partners, um fundo especializado em private equity. Dessa parceria nasceu a Volleyball World, uma joint venture onde 67% pertencem à FIVB e 33% à CVC.
O fundo de private equity aportou US$ 300 milhões para adquirir sua participação, recurso utilizado para acelerar o crescimento da modalidade. Neste modelo, os sócios dividem responsabilidades e direitos na governança da empresa, demonstrando uma colaboração direta entre a federação e o capital privado, similar ao que a Fifa almeja para o futebol.
Fórmula 1 e a governança com investidor privado
A Fórmula 1 também conta com um investidor privado, mas sua estrutura de governança é distinta. A categoria tem uma dona privada, a Liberty Media, que adquiriu os direitos comerciais em 2017. No entanto, a F1 opera sob o chamado Acordo da Concórdia, um contrato tripartite que envolve as equipes, a Federação Internacional de Automobilismo (FIA) e a própria Liberty Media.
Este acordo garante às escuderias um poder significativo sobre os rumos da modalidade. Qualquer alteração, seja esportiva, comercial ou administrativa, precisa da anuência das equipes, que possuem poder de veto coletivo sobre questões como a expansão do grid. Equipes tradicionais, como a Ferrari, mantêm historicamente cláusulas de veto individual em regulamentos, uma condição para assinar o acordo. Assim, mesmo com um dono privado e fins lucrativos, a F1 preserva mecanismos formais de poder para quem efetivamente disputa a competição.
O desafio da governança na joint venture da Fifa
É justamente na questão da governança que a proposta da Fifa ainda se encontra em um terreno incerto. A grande dúvida é como funcionaria a divisão de poder após a entrada de um sócio privado. Quantas cadeiras o investidor teria no Conselho de Administração e no Conselho Fiscal?
Mais importante, qual seria a voz das federações nacionais, das confederações e até mesmo dos clubes sobre o futuro da Copa do Mundo? O modelo da F1 demonstra que é possível ter investidores e preservar a autonomia das partes envolvidas, um desafio crucial para a Fifa ao buscar capital privado para seus torneios.
Perguntas Frequentes
O que a Fifa pretende fazer com a Copa do Mundo?
A Fifa anunciou a criação de uma empresa para administrar suas atividades comerciais, buscando atrair investidores privados para a Copa do Mundo e outras competições, conforme o modelo proposto por Gianni Infantino.
Como a proposta da Fifa se compara ao modelo do vôlei?
O vôlei, através da FIVB, estabeleceu uma joint venture, a Volleyball World, com a CVC Capital Partners, onde 33% da empresa pertencem ao fundo. Este é um modelo muito semelhante ao que a Fifa busca, com uma federação internacional se associando a um investidor privado.
A Fórmula 1 tem investidor privado e como funciona a governança?
Sim, a Fórmula 1 é de propriedade da Liberty Media desde 2017. A governança, porém, é tripartite, regida pelo Acordo da Concórdia, que dá às equipes poder de veto coletivo e, em alguns casos, individual, sobre decisões esportivas, comerciais e administrativas.
Qual a principal diferença entre o plano da Fifa e as ligas de críquete?
As ligas de críquete, como a IPL e The Hundred, são modelos de franquias que vendem participações sobre suas próprias equipes, não sobre uma nova empresa de uma federação internacional para gerir competições, como é o caso da Fifa.
Quais são os principais desafios da proposta da Fifa?
O maior desafio da proposta da Fifa reside na governança: definir como seria a divisão de cadeiras nos conselhos de administração e fiscal, e qual seria a voz das federações nacionais, confederações e clubes sobre o futuro da Copa do Mundo após a entrada de um sócio privado.

