Ex-atletas olímpicas cobram ação das entidades e fim da cultura de proteção a agressores no Fórum Esporte Seguro do COB.

A cultura do silêncio em torno de casos de abuso no esporte precisa ser rompida para que o ambiente esportivo se torne verdadeiramente seguro. Essa foi a principal defesa da ex-nadadora olímpica Joanna Maranhão e da ex-ginasta Daiane dos Santos durante a abertura da terceira edição do Fórum Esporte Seguro, promovido pelo Comitê Olímpico do Brasil (COB).

O evento aconteceu no Hotel Hilton Copacabana, no Rio de Janeiro, e contou com a participação de atletas e dirigentes. As ex-atletas destacaram a urgência de mudanças estruturais, criticando a postura predominantemente reativa das entidades e a dificuldade das vítimas em denunciar.

Joanna Maranhão, que foi vítima de abuso, enfatizou que abordar o tema não enfraquece o esporte, mas o aprimora, pois revela um compromisso com a dignidade e a segurança de seus participantes. O painel de abertura buscou consolidar a pauta dentro do Movimento Olímpico Brasileiro, conforme informação divulgada por Veja Esporte.

Joanna Maranhão e o combate à normalização do abuso

Joanna Maranhão é uma das vozes mais contundentes na defesa dos direitos dos atletas no Brasil. Ela refutou a ideia de que discutir abusos mancha a reputação do esporte, afirmando que “eu o amo tanto que quero que ele seja melhor do que isso”. Para a ex-nadadora, o silêncio não é mais uma opção, e a normalização de episódios de violência precisa cessar para a evolução do esporte.

A ex-nadadora, que denunciou ter sofrido abuso sexual aos nove anos por seu treinador, ressaltou os altos custos de falar sobre o tema. “Enquanto eu treinava para os meus últimos Jogos Olímpicos, eu precisava me defender de processos movidos pelo meu abusador”, revelou. Ela defende a criação de sistemas robustos que realmente protejam quem decide denunciar abusos.

A reatividade das entidades e a ausência de suporte contínuo

A crítica de Joanna Maranhão se estendeu à atuação das organizações esportivas, que ela descreveu como majoritariamente reativas. Segundo a ex-atleta, essas entidades falham em prevenir os problemas e em oferecer suporte contínuo às vítimas após a repercussão inicial. A prevenção e o apoio pós-denúncia são lacunas significativas que precisam ser superadas.

Questionada por Veja sobre a participação de atletas acusados de violência em grandes competições, Joanna foi categórica. “Não podemos celebrar atletas apenas pelo que fazem em quadra, ignorando violações cometidas fora dela”, afirmou. O desempenho esportivo, portanto, não pode servir para relativizar acusações de abuso ou violência sexual.

Protagonismo do atleta para um ambiente mais seguro

A campeã mundial de ginástica artística, Daiane dos Santos, reforçou a necessidade do protagonismo dos atletas na construção de ambientes seguros. Ela comparou a situação a uma ferida que precisa ser tocada para ser curada, destacando que “a voz do atleta precisa ecoar para defender o ambiente seguro que lhe pertence”. Mudanças estruturais são essenciais para um esporte seguro.

A presidente da Comissão de Atletas do COB, Fernanda Nunes, apontou o medo da retaliação como um dos principais entraves para as denúncias de abusos. “O atleta quer continuar no ambiente e teme ficar marcado como alguém que ‘reclama’”, explicou Nunes. Superar esse receio é fundamental para o avanço da pauta de segurança no esporte.

O compromisso do COB com o Fórum Esporte Seguro

Na abertura do III Fórum Esporte Seguro, o presidente do COB, Marco Antônio La Porta, reafirmou o compromisso da entidade com a criação de ambientes protegidos para os atletas. Ele destacou que a crescente relevância do fórum reflete a consolidação do tema como prioridade dentro do Movimento Olímpico Brasileiro, buscando o bem-estar e a segurança dos atletas.

Perguntas Frequentes

O que é o Fórum Esporte Seguro?

O Fórum Esporte Seguro é um evento anual promovido pelo Comitê Olímpico do Brasil (COB) que reúne atletas, dirigentes e profissionais para discutir a prevenção da violência e a promoção de ambientes esportivos seguros e acolhedores no país.

Por que Joanna Maranhão e Daiane dos Santos cobram o fim do silêncio?

As ex-atletas cobram o fim do silêncio sobre abusos no esporte porque acreditam que o tema, ao ser discutido abertamente, fortalece e melhora o esporte, em vez de enfraquecê-lo. Elas defendem que a cultura de reatividade e o medo de retaliação impedem a evolução do ambiente esportivo e a proteção dos atletas.

Qual o papel dos atletas na construção de um esporte seguro?

Segundo Daiane dos Santos, o papel dos atletas é fundamental e protagonista, pois suas vozes precisam ecoar para defender o ambiente seguro que lhes pertence. O engajamento e a denúncia por parte dos atletas são vistos como essenciais para promover as mudanças estruturais necessárias.

Como as entidades esportivas podem melhorar o combate a abusos?

Joanna Maranhão sugere que as entidades esportivas devem passar de uma postura reativa para uma proativa, investindo em prevenção e oferecendo suporte contínuo às vítimas. Ela enfatiza a necessidade de sistemas que realmente protejam quem denuncia, sem que o desempenho esportivo relativize acusações de violência e abuso sexual.